Transtornos Ligados ao Uso de Substâncias

Patricia de Vasconcellos Vaquero
Psicóloga atuante na clínica, especialista em dependência quimica.
CRP/SP 71039
São Paulo/SP
E-Mail: pativvaquero@yahoo.com.br

 

Estudo do abandono precoce no tratamento para fumantes

Moutinho M, Vaquero PV, Marques ACPR, Santos VS
Departamento de Psiquiatria da UNIFESP
UNIAD - TRATFUMO

INTRODUÇÃO
A dependência de nicotina é considerada a maior causa isolada de morte evitável no mundo. No Brasil, um quarto da população adulta é O índice de abandono no tratamento de dependentes de álcool e outras drogas é semelhante aquele de outras doenças crônicas, como diabetes e hipertensão arterial. 1 Alguns fatores influenciam o abandono como a gravidade da dependência e o estágio motivacional; a idade e a expectativa deste quanto ao método; a recaída, a postura do terapeuta e o tipo de intervenção 2 . Aproximadamente 50% dos pacientes abandonam o tratamento antes de receber alta. 3 Quanto mais precoce o abandono, pior o prognóstico do paciente. 4

OBJETIVO
Estudar o abandono precoce no tratamento dos fumantes.

MÉTODOS
Os pacientes elegíveis realizam a desintoxicação com o médico por 3 sessões. A seguir, é encaminhado ao grupo terapêutico por 4 sessões. Se os pacientes não comparecem à segunda consulta médica, sem qualquer aviso, são considerados aqueles que abandonaram precocemente. Nestes aplicou-se uma entrevista com oito perguntas, para estudar as causas do abandono.

Questionário:

Dados do paciente, número de telefonemas efetuados, número de sessões que o mesmo compareceu, médico que o atendeu, gravidade da dependência.

1) Qual a fase do tratamento que o paciente abandonou?
a) não veio a nenhuma consulta (só respondeu ao QPS)
b) após a primeira consulta com o médico
c) na desintoxicação
d) no grupo

2) Gostaria de tentar tratar-se novamente?
a) não
b) sim

3) Iniciou outro tratamento?
a) não
b) sim

4) Onde?
a) AA ou TA
b) Psicoterapia
c) Psiquiátrico
d) Com medicação
e) Religioso
f) Internação longa
g) Internação curta
h) Atendimento de emergência
i) Outros

5) Qual o motivo do abandono?
a) Horário do ambulatório
b) Distância
c) Problemas financeiros
d) Formato do tratamento
e) Não gostou do profissional
f) Mudou recentemente o estilo de vida
g) Catástrofe recente
h) Não está mais motivado
i) Só veio porque foi obrigado
j) Recaída
k) Mais de um
l) Outros

6) Qual era o seu grau de confiança quando iniciou o tratamento?
a) Nenhuma
b) Baixa
c) Moderada
d) Alta

7) O que você menos gostou?
a) Nada
b) Informações sobre os efeitos do tabaco
c) Estabelecimento de metas
d) Detecção de situações de risco
e) Planejamento de estratégias
f) Monitorização
g) Participação do terapeuta
h) Participação da instituição como um todo
i) Avaliação inicial do médico
j) Outros

8) Qual a sugestão para melhorar o programa?

RESULTADOS
Dos 110 homens elegíveis, a idade média foi de 42± 8; 65% estavam empregados e 100% estava disponível para iniciar.


DISCUSSÃO
Os principais motivos para o abandono precoce são a recaída, a falta de motivação, a falta de apoio familiar, a falta de perspectivas profissionais 2 . Ao contrário, neste estudo observou-se que a maior parte dos pacientes estava empregado e a dificuldade em conciliar o horário e a distância do ambulatório, juntos foram as causas mais importantes. A falta de motivação e a recaída também aparecem como causas importantes. Estudos sugerem que mesmo fornecendo o adesivo, o abandono ocorre e é maior em pacientes com nível sócio- econômico mais baixo (dificuldades em chegar as consultas e auto-eficácia, não entendiam o funcionamento do adesivo), mulheres (ganho de peso, flutuações hormonais e depressão). 5,7 E é menor em grupos cujas intervenções comportamentais são mais intensas e freqüentes. 5 A motivação e conflitos com a equipe (privacidade) são mais relatados em relação à gravidade dos sintomas e dificuldades em comparecer as consultas quando se analisa o tratamento do álcool e outras drogas conjuntamente. 6 As seguintes características são associadas à maior probabilidade de parar de fumar: maior nível educacional, raça branca, estar empregado, alto nível de auto-eficácia, baixo nível de depressão, baixo nível de preocupação com o peso, baixo nível de dependência de nicotina e aumento da duração e números de tentativas prévias. 7 Pacientes que fazem tratamentos mais longos apresentam um melhor prognóstico. 8 Novos estudos devem ser realizados pois na literatura se dá uma importância desproporcional à aderência ligada à farmacoterapia em face às questões práticas como: locomoção e horário das consultas.

CONCLUSÃO
Estudar as causas do abandono é muito importante, pois sabe-se que a adesão influencia o sucesso do tratamento. A ampliação dos horários do ambulatório, assim como a obtenção da terapêutica de primeira linha devem ser considerados.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 O' BRIEN CP,CHILDRESS AR, MC LEILLAN AT, EHRMAN R (1992) – Classical conditioning in drug- dependent humans ANN. New York Acad. Sci. 654, 400- 415. 2 MARQUES ACRP, BUSCATTI D, FORMIGONI MLOS O abandono no tratamento da dependência de álcool e outras drogas: como diminuir este fenômeno? (2001) – Jornal Brasileiro de Dependência Química. 3 STARK MJ Dropping out of substance abuse treatment: a clinically oriented REVIEW. Clin Psychol REV 1992; 12:93 – 116. 4 BAEKLAND F, LUNDWALL L Dropping out of treatment: a critical review. Psychology Bulletin 1975; 82:738 – 83. 5 COOPER TV,DEBON MW, STOCKTON M, KLESGOS RC, STEEBERG TA, MITTLEMAN DS, JENNINGS LC, JOHNSON KC Correlates of adherence with transdermical nicotine Add. Behaviors 29 (2004) 1565 – 1578. 6 BALL AS, CARROLL KM, BALL MC, ROUSAVILLE BJReasons for dropout from drug abuse treatment: symptoms, personality and motivation Adol. Behaviors 31 (2006) 320 – 330. 7 BORRELI B, HOGAN JW, PINTO B, BOCK B, ROBERTS M, MARCUS B Predictors of quitting and drop out among women in a clinic – Based Smoking Cessation Program. Psychology of Add. Behaviours 2002. 16: 22- 27. 8 SURJAN J, LARANJEIRA R O que acontece com os pacientes dependentes de álcool e drogas que desaparecem das primeiras consultas? Departamento de Psiquiatria – Unifesp 2000. PINSKY I, SILVA EA, MARQUES ACPR, FORMIGONI MLOS (1995) Abandono de tratamento por dependentes de álcool e drogas: um estudo qualitativo dos motivos. Revista da ABP-APAL.,17(4)150 -154. MARQUES ACPR (1995) Abandono de tratamento por dependentes químicos: Um estudo qualitativo dos motivos (1995) Jornal Brasileiro de Dependência Química.