Psicologia do Adolescente

Milena Aragão
Psicóloga atuante na Clínica
CRP: 07/15716
Caxias do Sul/RS
E-Mail: mi.aragao@yahoo.com.br
Website: www.milenaragao.kit. net

Trabalhando a hospitalização através do lúdico: grupo operativo com crianças em enfermaria pediátrica

O grupo operativo com crianças é uma atividade que busca proporcionar um espaço onde a criança possa, além de obter informações e esclarecer dúvidas, expressar suas ansiedades e fantasias decorrentes da doença e da hospitalização, visando tornar a situação hospitalar menos traumática.

Nela, as crianças interagem entre si, mediada pela psicóloga, utilizando brinquedos que imitam instrumentos hospitalares, desenhos, argila e com o material lúdico pedagógico confeccionado pelo setor de psicologia.

Geralmente, para esta atividade, os grupos devem ser formados por no mínimo três crianças maiores de quatro anos de idade, que estejam liberadas a sair do leito. A presença das mesmas é voluntária. Sugere-se que estes encontros ocorram pelo menos uma vez por semana, tendo aocmpanhamento e avaliação nos dias seguintes.

Abaixo será relatado um encontro ocorrido no hospital, com a finalidade de exemplificar o funcionamento de um grupo operativo.


Participantes:

J. 10 anos, diagnóstico: Pneumonia

  L. 11 anos, diagnóstico: diabete

C. 09 anos, diagnóstico: ceborréia e bicho de pé

  K. 07 anos, diagnóstico: pneumonia

A atividade iniciou-se com a psicóloga apresentando-se e explicando sua função. Em seguida foi perguntado para as crianças o nome delas, e o que estavam fazendo no hospital. K respondeu que estava com afta, pois tinha pequenas feridas em sua boca (sendo que seu diagnóstico era pneumonia), C. disse estar com cobreiro no pé, J. não soube dizer o nome de sua doença, mas disse que era no pulmão. L. disse que tinha diabetes.

Depois que todos nos apresentamos, passamos para atividade de desenho. Foi desenhado um boneco grande numa folha de papel pardo e foi pedido para que as crianças o completassem, desenhando também os órgãos internos. J. desenhou um pulmão e uma “mangueira” que ligava-o ao coração; desenhou também o joelho e, em seguida desenhou veias por todo o corpo do boneco, J. interligava todos os órgãos, segundo ele “é um caminho para passar o sangue”. Quando questionado sobre o motivo de tantas veias, ele disse: “Quando for pegar, dói aqui, não dói em mim”. L. desenhou o coração, dois fígados (no lugar dos rins) e a costela segurando “os fígados”. L. desenhou também o umbigo, unhas, língua, bexiga e cérebro. K. com a ajuda de C. desenhou os olhos, o nariz, o cabelo, a boca, a orelha, e pintou as unhas do boneco. Ela disse que a doença do boneco é dor de cabeça. Foi perguntado se ela sentia muita dor de cabeça e ela disse que sim, principalmente no hospital. Perguntamos então, onde se dá a dor de cabeça, J. respondeu que era na testa e L. disse ser no cérebro. C. disse que o boneco estava com dor na barriga, perguntamos se ela sentia essa dor, ela disse que um dia foi internada sentindo muita dor na barriga e o médico deu um remédio e passou. Para L. dor na barriga é na verdade dor na bexiga. Quando perguntado o que fazer para melhorar, ele disse: “dá remédio oras”. J colocou: “dá é injeção”

Num segundo momento, para encerrar grupo, foi proposta a visualização dos órgãos do corpo em um boneco confeccionado para que as crianças pudessem conhecer o corpo humano e interagir com as órgão dele, os quais são removíveis, a fim de tirarmos algumas dúvidas e vermos se o boneco que eles desenharam está muito diferente do outro boneco.

Nesse momento, eles puderam manipular os órgãos e aprender como era o corpo por dentro, ao mesmo tempo em que era realizado um trabalho de comunicação diagnóstica, ou seja, trabalhando-se no sentido, também, de apresentar os órgãos que estavam comprometidos em decorrência da enfermidade que tinham, para poderem tornar mais concreto algo até então tão virtual. Quando se depararam com alguns órgãos, as crianças comentavam: C. “o rim parece uma árvore.”, K. “isso parece um sapato”, falando do fígado.

O grupo foi finalizado com uma avaliação de todos sobre como se sentiram realizando esta atividade.



Discussão da atividade

Através da realização do grupo foi possível proporcionar a criança um espaço onde ela tivesse a oportunidade de obter informações, esclarecer dúvidas, interagir com outras crianças e expressar suas ansiedades e fantasias decorrentes da doença e da hospitalização, tornando a situação hospitalar menos traumática e proporcionando maior participação da criança no seu processo de tratamento.

Assim, na medida em que as crianças puderam manipular aquilo que acreditavam ser uma cópia de seu próprio corpo (por meio da projeção), passaram a ter maior controle sobre o que estava acontecendo com elas, saindo da posição passiva e adotando uma posição mais ativa diante da doença. (Oliveira,2000)

A brincadeira é uma atividade universal, através dela a criança consegue apreender o mundo adulto e treinar para as atividades posteriores, é um veículo de adaptação da criança, um meio pelo qual pode elaborar suas dificuldades internas em confronto com as exigências exteriores. A brincadeira é considerada uma forma de comunicação. A maneira de brincar de uma criança revela seu mundo interior, mostra um equilíbrio entre a fantasia e a realidade. Quando elas não podem modificar a situação real, são capazes de suportá-la, porque podem refugiar-se no mundo do faz de conta. (Winnicott, 1985)

Para o trabalho da psicologia, o brinquedo serve como um instrumento de comunicação com a criança. Na preparação para exames e procedimentos a utilização de material lúdico permite desmistificar as fantasias acerca dos procedimentos e diminuir a ansiedade. A utilização da brincadeira como auxiliar na comunicação de diagnósticos e no trabalho de outros conteúdos, que surgem no contexto hospitalar, também tem grande relevância. (Souza,1992)

A comunicação com a criança possibilita que ela expresse sua compreensão e fantasias sobre a doença. O boneco, como um instrumento concreto e facilitador da transmissão das informações devidas, respeita as capacidades de compreensão da criança. A atividade lúdica, realizada nessa situação específica, encerra significados correspondentes à experiência emocional do momento. (Souza, 1992)

Um instrumento lúdico aliado a uma linguagem simples e adequada, escolhendo palavras que já façam parte do vocabulário da criança, respeitando os sentimentos e opiniões desta, incentivando-a a expressar o que está pensando e sentindo, é uma das maneiras de ajudá-la a enfrentar e elaborar os assuntos difíceis, propiciando à adesão ao tratamento e favorecendo a sua recuperação.





SOUZA, R. P. Nossos filhos: a eterna preocupação. 5 ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1992. 272p.

OLIVEIRA, M. F. et al. Rumos da Psicologia Hospitalar em Cardiologia.  Campinas: Papirus, 1995.

WINNICOTT,  D.  W.   A criança e seu mundo.  Trad. de Álvaro Cabral.  6.ed.  Rio de Janeiro:  Zahar, 1985.