Psicologia do Adulto

Paulo Bonanca
Psicólogo, Sexólogo
CRP 05/30190
Atua em Psicoterapia e Sexualidade Humana
Rio de Janeiro - RJ
E-Mail: paulopsi2000@yahoo.com.br
Website: www.paulobonanca.com
Obs: Psicólogo com especializacao em sexualidade humana, transtornos e disfuncoes sexuais. Coordenador do Aconselhamento em HIV-AIDS Grupo Pela VIDDA/RJ. Membro da SBRASH (Sociedade Brasileira de Estudos da Sexualidade Humana). Conselheiro em Direitos Humanos pela Ágere Cooperação em Advocacy

 

Poder, anormalidade e homossexualidade

A homossexualidade como uma construção da modernidade


Poder, anormalidade e homossexualidade
Aportes de Kinsey e Foucault


Este artigo é uma homenagem a dois grandes guerreiros modernos, que a seu tempo e de seu modo contribuíram para a visão que temos hoje, sobre a sexualidade humana e  a  seus atuais seguidores.

Um dos primeiros estudos modernos, sobre a  homossexualidade como fenômeno socialmente significativo, que recebeu destaque nos meios acadêmicos foi o realizado  pelo biólogo e sociólogo americano Kinsey, nos Estados Unidos entre 1948 e 1953. Em 1948, Kinsey publicou o primeiro relatório sobre o comportamento sexual dos homens, seguido pelo de mulheres em 1953. Os resultados das pesquisas descritos nos "Informes Kinsey" trouxeram a luz pública dados considerados inimagináveis à sociedade americana puritana da época. Um deles foi a descoberta de que 92% dos homens e 68% das mulheres que participaram da investigação, afirmaram que se masturbavam ou que já  tinham se masturbado, esta informação surpreendeu o mundo e os americanos. 

Com relação ao objeto erótico afetivo da população masculina incluída no estudo, 50% relataram manter relações sexuais exclusivamente heterossexuais, 46% afirmaram ter tanto relações heterossexuais como homossexuais e 4% dos participantes afirmaram manter relações exclusivamente homossexuais, este último grupo foi definido por Kinsey como "homossexuais absolutamente homossexuais".Obs: com relação à porcentagem de homossexuais, estudos atuais estimam que entre 5 a 10 % da população mundial seria composta por homossexuais.

 As conclusões de Kinsey apontaram que a homossexualidade seria uma variação natural da expressão sexual normal do ser humano, e que não estaria relacionada a aspectos psicopatológicos, além de que todas as pessoas seriam capazes de responder eroticamente a estímulos sexuais provenientes de pessoas do sexo oposto ou do seu mesmo sexo. Para alguns, Kinsey  é considerado um sábio que demonstrou a hipocrisia reinante na época, e colocou os holofotes sobre o tema da repressão sexual. Para outros, ou seja, seus detratores (e eles ainda existem), ele seria um dos responsáveis pelo decaimento da moral e bons costumes reinantes na atualidade.

Sobre a discussão científica e social acerca da normalidade ou anormalidade da sexualidade humana, outro detrator da repressão sexual, o filósofo Francês Michael Foucault afirma que a sexualidade humana, através da história, esteve sob a suposta ameaça de ser dominada por  processos patológicos, o que teria levado  as ciências e a religião a intervir, atuando tanto ao nível de prevenção como de cura e normalização. Dentro deste processo a igreja católica, as ciências médicas e a sexologia definiram a homossexualidade como uma patologia, um desvio da conduta sexual normal, buscando deste modo mudá-la para a heterossexualidade dominante.

Foucault afirma, que o poder social  estabeleceu e ainda estabelece os limites entre o normal e o patológico, o racional e o irracional, assim como do sano e o insano, seria um poder normalizador, que exclui o que não se enquadra dentro dos parâmetros formais de normalidade. Este poder social/normalizador teria suas bases no complexo saber/poder, ou seja, um vínculo direto entre o saber e o poder, em uma relação que potencializa o saber na sua busca da normalidade, e que esta normalidade seria uma ferramenta de dominação. Segundo Foucault, devido a este poder normalizador/dominador  podemos observar através do tempo como as pessoas foram (e continuam sendo) julgadas, classificadas, condenadas, obrigadas a viver de um certo modo e até a morrer por não desistir de suas convicções.

Normalidade sexual

Não é fácil definir onde está localizado o limite entre a sexualidade humana normal e a anormal, já que estes conceitos estão mais relacionados a atitudes sociais do que a dados científicos. Alguns autores afirmam que os conhecimentos científicos que temos a respeito do tema ainda são inconcretos, e seria um erro tentar definir rigidamente a normalidade sexual. Com relação à saúde mental dos homossexuais, eles podem não ter nenhuma dificuldade psíquica e estar perfeitamente adaptados ao trabalho e a sociedade, ou por outro lado, apresentar uma ampla variedade de transtornos psíquicos exatamente igual aos heterossexuais. A perseguição e repressão da sociedade aos homossexuais, fariam uma parte da população deste grupo sofrer de distintos graus de neurose, mas estas não teriam relação com a orientação sexual, mas sim com a dificuldade que representa ser homossexual em nossa sociedade.



A homossexualidade como uma construção da modernidade

O caráter histórico das práticas sexuais, sua dimensão simbólica e seu caráter dialético, configuram elementos que nos permitem compreender a relação indivíduo/sociedade/sexualidade. Até o final do século XVIII, o direito canônico, a lei civil e a pastoral cristã estabeleceram o lícito e o ilícito dos atos sexuais, colocando no núcleo do seu discurso a família e seu papel reprodutivo, objetivando, deste modo, a ordem e o controle social através da regulamentação das práticas sexuais.

Com o inicio da modernidade e o avanço das ciências, o foco de atenção sexual deixou de ser o matrimonio e se concentrou nas sexualidades periféricas, ou seja: a sexualidade dos loucos, das crianças, dos criminosos e no prazer homoerótico. As sexualidades, ditas periféricas, não surgiram na modernidade: sempre estiveram presentes durante épocas anteriores, porém a diferença é que agora elas passam a ter uma visibilidade e são apresentadas como entidades específicas que devem ser estudadas, avaliadas e controladas.


Através deste processo ocorreu a implementação das perversões pela ciência, que se encarrega de controlar, classificar e inseri-la dentro de uma realidade permanente e analítica. Estas novas classificações e especificações criaram uma nova identidade, um novo tipo de indivíduo: o sujeito homossexual , diferente dos outros sujeitos da sociedade por estar fora da norma dominante.


Esta construção moderna da homossexualidade como uma identidade, impossibilitou uma visão total do indivíduo, que passou a ser fragmentado com sua sexualidade predominando seus atos. O sodomita de épocas anteriores era um relapso, o homossexual do início da modernidade é uma espécie.


Atualmente, as ciências e a sociedade civil organizada deram grandes passos no sentido de desmistificar o prazer homoerótico e o preconceito social que o acompanha. Mas o caminho é longo e difícil, pois a tolerância alcançada através de árduo trabalho não é a falta do preconceito, mas sim, o preconceito congelado, escondido, à espera de uma oportunidade para surgir e estabelecer suas normas e pautas de controle e normalidade sexual.