Psicologia do Adulto

Renata Goltbliatas
Atua em psicologia hospitalar e clínica
CRP/SP 06/66595
São Paulo/SP

E-Mail: regoltbliatas@hotmail. com
Website: renatapsi.awardspace. com
Obs.: Psicóloga com Formação em Psicologia Hospitalar pela Santa Casa de São Paulo com habilitação em Pediatria, Oncologia e Neuropsicologia; Aprimoranda em Psicologia Hospitalar no Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros, com habilitação em Ginecologia. Associada do Ceaap - Realiza atendimento a Crianças, Adultos, Casais e especialmente a pacientes da Oncologia, Acompanhamento Psicológico durante o Pré e Pós Operatório de pacientes da Oncologia; Apoio Psicológico para pacientes submetidos à Quimioterapia e Radioterapia; Apoio Psicológico para familiares e cuidadores destes pacientes. Ministra Palestras na área da Psicologia Hospitalar e Aulas como Profª. Convidada no Curso de Psicologia Hospitalar do Ceaap; Colaboradora na criação e implantação do I Prêmio Ceaap de Produção Científica.

MORTE E LUTO: PERSPECTIVAS PSICOLÓGICAS

 
A morte é considerada a finalização de um ciclo, o fim de tudo. Mas a discussão sobre o que ela é e como ela acontece ainda é  um assunto delicado e muitas vezes até evitado pela maioria das pessoas.

O fato de sabermos que ninguém escapará da morte é o que a torna um assunto tão fascinante e ao mesmo tempo angustiante, pois ela não pode ser evitada. A ciência busca há séculos maneiras de retardá-la e até mesmo suplantá-la, através de seus medicamentos e suas pesquisas, obtendo êxito em algumas áreas. O fato é que a vida e a morte são assuntos complexos e que sugerem discussões polêmicas e acaloradas.

Mas afinal, o que é a morte?

Buscando o significado da palavra morte, encontrei no dicionário de Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1986) a seguinte explicação: “ato de morrer, o fim da vida genital, animal, fim. Grande dor, pesar profundo”.

Pensando na morte como algo mais profundo, Chevalier et al (2002), designá-a como o fim absoluto de qualquer coisa. Enquanto símbolo, a morte é considerada o aspecto perecível e destrutivo da existência, indicando aquilo que desaparece na evolução das coisas. No entanto, ela é ao mesmo tempo revelação e introdução, pois todas iniciações atravessam uma fase de morte, antes de acessar uma vida nova. Portanto, a morte tem um valor psicológico que liberta das forças negativas e regressivas, tornando possível à ascensão do espírito. Ela é considerada filha da noite e irmã do sono, tendo o poder de regenerar, ela é, enfim a condição para o progresso e para a vida.

Para Kovács (1992), a morte está presente em nosso desenvolvimento desde o nascimento, onde a criança, na ausência da mãe, mesmo que temporária, se percebe só e desamparada, o que acaba deixando uma marca profunda na vida desta criança. Portanto, a representação mais forte da morte é aquela tida como ausência, perda, separação e as vivências de aniquilação e desamparo. Outro elemento importantíssimo no entendimento da morte é o da culpa, o que é freqüentemente atribuído à perda real do outro, por conta de nossos pensamentos onipotentes infantis de desejos de morte, onde nos sentimos responsáveis pela morte do outro, estando muitas vezes associados à falta de cuidados, gerando, portanto a culpa. A morte, do ponto de vista biológico e funcional, é tida como o fim da existência e não da matéria, sendo caracterizada pela interrupção completa e definitiva das funções vitais de um organismo vivo.

A morte então está relacionada a tudo aquilo que nos cerca, nos fazendo pensar que não somos eternos, que não somos donos de nossa própria vida, tendo que obedecer ao ciclo natural da vida, ou seja, tudo que é vivo um dia morrerá. A morte também nos remete à doença e ao sofrimento, isto é, pensar na morte muitas vezes está associado ao fato de que essa será sofrida, dolorosa, e muitas vezes em decorrência de uma doença grave. A morte também sinaliza o fim de uma etapa, para o início de outra, como o fim da infância e o início da adolescência, por exemplo.

Ao pensar na morte como perda, é importante ressaltar que a morte do outro se configura como a vivência da morte em vida. É a possibilidade de experimentar a morte que não é a própria, mas é vivida como se uma parte de nós morresse, uma parte ligada ao outro pelos vínculos. Portanto, a perda pela morte é a ruptura irreversível de um vínculo, sobretudo quando ela é real, concreta.

Ducati (1995), discorrendo sobre as perdas enfrentadas no desenvolvimento físico e psíquico do ser humano, ressaltou que esta poderia ser sentida como separação, morte real e definitiva do corpo físico, sentimento de impotência, limite e cortes no decorrer da vida. Ainda sobre a perda, Kovács (1992) observou que a morte envolve sempre duas pessoas, uma que é perdida e a outra que lamenta sua falta, sendo que o outro é em parte internalizado na memória, na lembrança numa situação de elaboração do luto. Quando essa morte do outro ocorre de modo brusco e inesperado, há uma desorganização, uma paralisação e um sentimento de impotência daquele que perdeu.

Esses sentimentos mobilizados pela perda como morte, são possíveis por causa do processo de luto e sua elaboração. Freud, em “Luto e Melancolia” (1917), define o luto como uma reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar desse ente, desânimo profundo, falta de interesse pelo mundo externo e perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor. Ou seja, o objeto amado não existe mais, o que exige que a libido seja desviada para outro objeto, o que causa grande desagrado. Quando finalmente o trabalho do luto termina, o ego está novamente livre e desinibido.

Ainda sobre o processo de luto, convém citar a contribuição da teoria do vínculo de Bowlby de 1985, que descreveu este processo como sendo um conjunto de reações diante de uma perda, possuindo então quatro fases a serem descritas: a) Entorpecimento: é a primeira reação, com choque e descrença, durando de horas a dias, havendo crises de raiva e choro. È comum à presença de distúrbios somáticos e a negação da perda podem estar presentes como forma de defesa; b) Anseio e protesto: emoções fortes, sofrimento e agitação física. Há um desejo de encontrar-se com o morto com crises de profunda dor e choro; c) Desespero: reconhecimento da imutabilidade da perda, havendo grande risco de apatia e depressão com afastamento do meio social e das atividades, persistindo os distúrbios somáticos, d) Recuperação e restituição: sentimentos positivos e menos devastadores, permitindo uma aceitação e o retorno da independência e iniciativa. Ressaltou ainda que o luto pode ser considerado normal ou patológico, mas não significa que não seja doloroso ou que não exija grande esforço de adaptação às novas condições de vida, tanto por cada indivíduo afetado como pelo sistema familiar, seja sua elaboração normal ou não (Carvalho, 1994). O autor enfatizou que a elaboração saudável do luto se dá com a aceitação da modificação do mundo externo, ligada à perda definitiva do outro, e a conseqüente modificação do mundo interno e representacional, com a reorganização dos vínculos que ainda existem. Já a elaboração patológica se dá com a exacerbação dos processos do luto normal, com duração muito longa, com características obsessivas assumindo um caráter irreversível. Dessa forma, duas mudanças devem ser operadas durante o processo de elaboração do luto. Primeiramente deve-se reconhecer e aceitar que a morte ocorreu e a relação agora está acabada, e em segundo lugar deve-se experimentar e lidar com as emoções e problemas da perda para restabelecer sua vida de acordo com a realidade atual.

A morte mesmo sendo comum a todo ser humano, causa muito medo, por ser a única coisa realmente desconhecida e da qual nunca poderemos escapar.

Pode também representar o medo da solidão, da separação de quem se ama, o medo do desconhecido, do julgamento por seus atos em vida, do que ocorrerá com seus familiares e por fim o medo do fracasso na realização de seus objetivos, como se sua “missão” não pudesse ser terminada.

Diante do que foi exposto com relação à morte pode-se dizer que este é um tema que mobiliza muitas questões, por estar ligado à representação da aniquilação, da doença e da separação daqueles que amamos, por conta disso, podemos dizer que este se torna então um fator extremamente estressante, e como tal, pode estar vinculado ao aparecimento de doenças e por isso merece atenção.


CARVALHO, M.M.M.J. e COL. Introdução à Psiconcologia, São Paulo:

Psy II, 1994.

CHEVALIER, J. e COL. Dicionário de Símbolos. 17ª ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.

DUCATI, DCP O Médico frente “a Indesejada das Gentes”. Revista do Hospital Fêmina, nº 01, Porto Alegre, janeiro 1995.

FERREIRA, ABH Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 1ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

FREUD, S. Luto e Melancolia (originalmente publicado em 1917) In Obras Completas de Freud. v. 14, São Paulo, 1997.

KOVÁCS, M. J. Morte e Desenvolvimento Humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.


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