BALLONE, G J - Alterações Emocionais no Envelhecimento , in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br , revisto em 2004.
Transtornos Emocionais do Envelhecimento
O relacionamento do idoso com o mundo se caracteriza pelas dificuldades adaptativas, tanto emocionais quanto fisiológicas; sua performance ocupacional e social, o pragmatismo, a dificuldade para aceitação do novo, as alterações na escala de valores e a disposição geral para o relacionamento objectual. No relacionamento com sua história o idoso pode atribuir novos significados a fatos antigos e os tons mais maduros de sua afetividade passam a colorir a existência com novos matizes; alegres ou tristes, culposas ou meritosas, frustrantes ou gratificantes, satisfatórias ou sofríveis... Por tudo isso a dinâmica psíquica do idoso é exuberante, rica e complicada.
Freud afirmava, com notável sabedoria, que os determinantes patogênicos envolvidos nos transtornos mentais poderiam ser divididos em duas partes:
1- aqueles que a pessoa traz consigo para a vida e;
2- aqueles que a vida lhe traz(2).
Na senilidade isso fica mais evidente ainda, de um lado os fatores que o indivíduo traz consigo em sua constituição e, de outro, os fatores trazidos à ele pelo seu destino. O equilíbrio psíquico do idoso depende, basicamente, de sua capacidade de adaptação à sua existência presente e passada e das condições da realidade que o cercam.
Disposições Pessoais
As Disposições Pessoais são os elementos referidos por Freud ao se referir àquilo que o indivíduo traz para a vida, ou seja, sua constituição. Ajuriaguerra, ao afirmar que "envelhece-se como se viveu", certamente estava pensando nos traços pessoais de nossa constituição que acabam ficando mais marcantes com o envelhecimento. A casuística da prática clínica tem mostrado, embora nunca de maneira absoluta, que os indivíduos portadores de dificuldades adaptativas em idade pregressa envelhecem com maiores
dificuldades.
Se os acontecimentos existenciais eram sentidos com alguma dificuldade ou sofrimento na idade adulta ou jovem, quando a própria fisiologia era mais favorável e as condições de vida mais satisfatórias e atraentes, no envelhecimento, então, quando as circunstâncias concorrem naturalmente para um decréscimo na qualidade geral de vida, a adaptação será muito mais problemática. Portanto, está correto dizer que quanto melhor tenha sido a adaptação da pessoa à vida em idades pregressas, melhor será sua
adaptação no envelhecimento.
Por outro lado, alguns autores observaram uma significativa melhora em poucos casos de neuroses com o envelhecimento, fato também observável na prática psiquiátrica. Isso nos mostra, de fato, não haver uma desestruturação psíquica no envelhecimento mas sim, uma alteração estrutural na dinâmica psíquica, novos arranjos psicodinâmicos e nova arquitetura afetiva distinta da anterior.
Nestes casos, um ambiente pleno de carinho e atenção em torno do idoso, juntamente com uma serenidade afetiva própria da involução favoreceriam o acomodamento emocional com o envelhecimento. Esta "serenidade afetiva", necessária à acalmia de algumas neuroses no envelhecimento, seria uma circunstância emocional mais tranqüila, possivelmente ausente em épocas anteriores e, cuja falta, poderia contribuir para a manutenção de um antigo quadro neurótico. Tais alterações estruturais benéficas são mais observáveis em alguns casos de transtornos obsessivos, histéricos e fóbicos, porém, não devem ser entendidos como via de regra.
Mais comum na senilidade, entretanto, é o agravamento e não a melhora das alterações psíquicas anteriormente constatadas. No caso das neuroses do idoso, assim como nas demais idades, o transtorno decorre do grande esforço interno em conseguir uma satisfação existencial e uma adaptação à realidade.
Assim sendo, mesmo diante de circunstâncias existenciais favoráveis para alguns idosos, tal satisfação adaptativa não seria conseguida devido à certa fragilidade emocional própria de seus traços afetivos. Nestes casos não é, absolutamente, a vida ou as circunstâncias ambientais correlacionadas à senilidade quem estaria proporcionando condições necessárias para a eclosão da sintomatologia neurótica mas sim, as condições de personalidade prévia do paciente. Outros idosos, possuidores de melhores condições de adaptação (personalidade), não manifestariam transtornos emocionais diante de iguais condições de vida.
É por causa disso que se envelhece como se viveu.
Dentre as funções psíquicas alteradas com e pelo envelhecimento, a afetividade deve ser destacada. Para melhor entendimento, na abordagem das manifestações neuróticas e distúrbios do humor, é bom relembrar a afetividade como sendo a capacidade de experimentar sentimentos e emoções, como um estado de ânimo que proporciona a tonalidade do relacionamento do indivíduo com o mundo e consigo próprio.
Uma das alterações afetivas do envelhecimento é a Incontinência Emocional . Trata-se de uma forma de alteração da afetividade peculiar à velhice que se caracteriza pela grande facilidade em produzir intensas reações afetivas e uma subseqüente incapacidade para controlá-las (1).
Além desta Incontinência Emocional podemos encontrar também, Labilidade Afetiva , cuja característica é as mudanças rápidas das emoções. Pode haver hipomania, acompanhada de explosões do humor ou manifestações de cólera diante de estímulos insignificantes. Tais alterações podem ser conseqüentes não apenas ao psicodinamismo reestruturado dos idosos mas, também, às alterações degenerativas do SNC, seja do ponto de vista tecidual, seja circulatório. Nos transtornos degenerativos a afetividade costuma ser uma das mais precoces manifestações. Alonso Fernandes cita a desestruturação afetiva nas fases iniciais das Síndromes Psicorgânicas em três formas distintas:
a) exagero dos traços afetivos pessoais;
b) primitivização da personalidade;
c) esvaziamento afetivo da personalidade.
Acompanhando ou não os estados degenerativos do envelhecimento, as alterações afetivas serão tanto mais proeminentes quanto mais problemática tenha sido a personalidade prévia do paciente. É por causa dessas constatações que a chamada Personalidade Pré-Mórbida tem muita importância em psiquiatria.
Além dos componentes da personalidade sabemos, atualmente, dos aspectos familiares e genéticos atrelados às doenças degenerativas da senilidade. Alguns casos de demência têm significativa concordância familiar, como é o caso da Doença de Pick, da Doença de Jacob-Creustzfeldt, da Coréia de Huntington ou até da Demência Ateriosclerótica.
Assim sendo, a pessoa traz para a vida não apenas a parte de sua personalidade visivelmente conhecida e pesquisada sob o título de "Personalidade Pré-Mórbida" mas, sobretudo, certas peculiaridades genéticas ocultas e capazes de aumentar a probabilidade do desenvolvimento das doenças próprias do envelhecimento.
Diz um provérbio que "teme mais a morte aquele que mais temeu a vida". Trata-se de uma clara alusão ao aumento das dificuldades adaptativas incrementada com o passar dos anos para algumas pessoas. Se, em tempos anteriores quando todas circunstâncias existenciais eram mais satisfatórias, quando toda potencialidade vital era plena, quando o futuro era ainda distante e quando a solidão não tinha sido experimentada, mesmo assim a pessoa passava por momentos de franca dificuldade adaptativa, no envelhecimento então, quando se fazem sentir todas as dificuldades, a capacidade adaptativa anterior só pode mesmo estar piorada.
As características trazidas pelo indivíduo à vida (sua constituição) se tornarão mais exuberantes com o envelhecimento e, se o indivíduo viveu desadaptadamente durante fases mais prematuras de sua existência, certamente envelhecerá mais desadaptadamente ainda. As pulsões e paixões reprimidas ao longo da vida não encontram mais na velhice energia suficiente para mantê-las em repressão e eclode na consciência um triste e amargo culto ao passado, com suas frustrações, seus pecados, suas angústias e seus rancores.
|
|